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Cinema e Audiovisual

Assisti ao mesmo filme 5 vezes na mostra: como a conversa com o diretor mudou minha leitura da cena final

Relato de como acessar o criador por trás de uma obra regional transformou minha interpretação de uma confusa cena final, provando que o erro na compreensão often está no isolamento do espectador.

Lucas Mendonça
Lucas MendonçaEditor de Música e Noite8 min de leitura
Imagem editorial ilustrando Assisti ao mesmo filme 5 vezes na mostra: como a conversa com o diretor mudou minha leitura da cena final

No ano passado, gastei R$ 150 em ingressos de temporada apenas para assistir a um único longa-metragem que estava passando na Mostra Audiovisual do Centro Histórico. O filme era "O Silêncio da Ponte", uma produção local de baixo orçamento que estava gerando um burburinho pequeno, mas intenso, nos corredores do cinema. Não sou crítico profissional pagando para destruir ou elogiar; sou um cara que sai do trabalho às 18h00 e quer ver coisas que a Netflix não me oferece. O problema era que, após a terceira sessão, eu estava convencido de que a cena final — um plano-sequência de oito minutos num barco atravessando o rio sob neblina — era um erro de roteiro. Parecia o clássico "aberto para abrir", algo que o diretor não soube resolver.

Só que eu não conseguia largar o osso. Voltei na quinta e na sexta vez. Entrei na sala decidido a provar que aquilo era pretensioso. Saí achando que eu é quem estava cego para o óbvio. O que aconteceu entre a terceira e a quinta sessão não foi mera repetição; foi o acesso à fonte. Quando finalmente tive a oportunidade de falar com o Henrique Vaz, o diretor, em uma daquelas mesas de bar de fundo de quintal que costumam marcar os after-partis da mostra, minha leitura da obra virou de cabeça para baixo.

A obsessão pela sala 3 do Centro Cultural

Quando assisti na segunda-feira, o filme era um drama sobre um pescador que perde a rede e, com isso, sua dignidade. A câmera lenta, o som ambiente do rio e a trilha minimalista criavam uma atmosfera sufocante. A plateia na segunda-feira era formada principalmente por idosos do bairro que ganharam ingressos da prefeitura. Na hora dos créditos finais, a sensação foi de alívio geral. "Que filme chato", comentou a senhora na minha frente.

Eu, porém, fiquei revirando a cena final na cabeça. O personagem principal, o Joca, entra no barco. A neblina cobre tudo. A tela preta. Corta. Não há resolução. Ele se matou? Ele foi embora? Ele ficou ali parado? Eu assumi a postura de espectador arrogante: "O diretor quis fazer arte e esqueceu de contar uma história". É o mesmo tipo de frustração que sinto quando vejo filmes locais de terror exibidos na mostra de outono que usam o susto barato para esconder um roteiro furado.

Mas havia um detalhe técnico que me incomodava. Durante toda a travessia, o som do motor do barco mudava sutilmente. Às vezes parecia zumbido, às vezes parecia um rugido. Na quarta sessão, que eu fui sozinho numa quarta-feira chuvosa (o cinema tinha menos de dez pessoas), fechei os olhos e foquei apenas no áudio. Não era aleatório. Havia um padrão.

O erro de achar que o diretor queria confundir

Cheguei à conclusão de que talvez o Joca tivesse tido um ataque cardíaco no meio do rio e o som fosse a alteração da percepção dele. Era uma teoria plausível, justificava o plano longo e o corte abrupto. Fica bonito no papel, dá para escrever um texto chique sobre "a subjetividade da morte". Mas, cá entre nós, faltava coerência interna. O filme até então era pé no chão, realista, quase documental. Pular para o expressionismo psicológico ali no final parecia uma trapaça.

O erro que eu cometia — e que vejo muita gente cometer ao julgar o cinema feito aqui — era achar que a obra está me pedindo para adivinhar um segredo. Nós, frequentadores assíduos de mostras independentes, às vezes agimos como se o cineasta estivesse nos desafiando para um duelo de intelecto.

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Na sexta vez, já era sábado. O cinema estava cheio, mas não com o público de segunda-feira. Eram estudantes de cinema, roteiristas locais e aquela turma que sempre sabe de tudo. Pensei: "Agora vou ver o que esses caras entendem que eu não entendo". Saí da sala mais confuso do que nunca. O pessoal ao lado debatia sobre "o fim das tradições ribeirinhas" e "ecologia profunda". Nada disso tocava no ponto do áudio que eu havia notado.

A verdade está na produção, não só na obra

A sorte é que a grade da mostra previa uma conversa com o diretor logo após essa sessão de sábado. Foi aí que o método de "assistir e tentar resolver sozinho" provou seu limite. Eu não estava sozinho na minha confusão, mas a solução não estava na tela; estava na boca de quem fez o filme.

Cheguei até o Henrique no intervalo. Ele estava cansado, segurando um café daquelas máquinas de vending que custam R$ 3,50 e sabem a papelão queimado. Não tive paciência para formalidades. Perguntei direto: "O motor do barco na cena final, o padrão de rugido e silêncio, é o que? É a batida do coração dele? É ele morrendo?".

Henrique olhou para mim, sorriu e soltou uma frase que destruiu todas as minhas teorias elaboradas: "Não é nada disso. O motor do barco quebrou duas vezes durante a gravação. Ficamos duas horas parados no meio do rio esperando o mecânico chegar de canoa. O que você ouve é o motor pegando no tranco, morrendo e a gente tendo que empurrar o barco".

Sabe aquela sensação de desmoronar? Pois é. O que eu via como uma metáfora genial sobre a luta contra a morte era, na verdade, a pura e crua realidade de uma produção sem verba. Eles não tinham dinheiro para alugar um gerador de som limpo ou um barco melhor. A "neblina" não era adereço, era o tempo fechando e a equipe correndo para perder a luz do dia.

Como uma limitação de orçamento salvou o filme

Essa resposta frustrante no começo se tornou fascinante quando ele continuou. Henrique explicou que, ao ver a bruta e descobrir que o som estava sujo, ele tentou dublar. "Sincronizei o motor, ficou falso. Tentei tirar o som e colocar só trilha, ficou meloso". A solução foi assumir o acidente. A estrutura do filme muda quando você sabe disso.

Não é um filme sobre um homem perdendo a dignidade e morrendo metaforicamente. É um filme sobre a resistência física de continuar remando quando o motor falha. A cena final não é aberta porque ele quis ser "artístico". Ela é aberta porque o ator, na hora do corte, olhou para a câmera com uma expressão de "cadê o motor?" e o diretor viu ali a face exata da nossa região: tentando funcionar com peças emprestadas.

Muitos filmes independentes acabam tendo apenas o cineclube como público justamente porque o espectador médio acha que "não entendeu". Mas a verdade é que muitas vezes não entendemos o contexto de produção. Se você soubesse que aquele curta-metragem nacional da sessão das 10h foi rodado num celular porque a câmera quebrou no dia da gravação, sua apreciação da iluminação mudaria completamente. Você pararia de cobrar "qualidade técnica hollywoodiana" e passaria a admirar a engenhosidade.

Aquele áudio do motor morrendo, que eu decifrei como batida cardíaca, tornou-se para mim, após a explicação, o elemento mais honesto do cinema brasileiro dos últimos tempos. A obra deixa de ser uma ficção sobre um pescador e vira um documento sobre a dificuldade de fazer cinema no interior. A neblina não é poética; é o risco de perder o equipamento.

A reviravolta na minha sexta maratona

Mesmo tendo a resposta do diretor, eu fui assistir mais uma vez no domingo (sim, a sexta sessão). E dessa vez, a experiência foi totalmente diferente. Eu não estava mais procurando mensagens ocultas ou metáforas complexas. Eu estava assistindo a um documentário disfarçado.

Quando a cena final começou, eu não via mais o personagem Joca. Eu via o Henrique no barco, com medo de a bateria da câmera acabar enquanto o motor falhava. A angústia na tela não era do personagem; era da equipe. Isso deu ao filme uma tensão visceral que nenhuma trilha sonora conseguiria criar. Eu riso baixinho na poltrona quando o motor engasga, não por piada, mas pela identificação.

É curioso como o conhecimento da "engrenagem" por trás da mágica potencializa a emoção em vez de matá-la. A plateia ao lado continuava debatendo se o rio era o tempo passando. Eu sabia que era o rio mesmo, sujo e difícil de navegar. E isso era muito mais bonito.

O método para não perder o filme local

Passei a aplicar um filtro diferente quando vou a festivais. Não trato o filme como um enigma que eu preciso decifrar sozinho na sala escura. Trato cada obra como uma conversa inacabada que o diretor iniciou. Se algo parece confuso ou mal acabado, minha primeira parada não é mais o crítico ou o fórum na internet. É o cara que fez.

Aqui está o passo a passo que eu extraio dessa experiência de "O Silêncio da Ponte":

  1. Identifique o ponto de fricção. Não foi o roteiro todo, foi a cena final. Tenha certeza do que te incomoda antes de julgar o todo.
  2. Busque a fonte imediata. Nas mostras, os diretores estão lá. Pergunte. O pior que pode acontecer é a resposta ser chata ("falta de verba"). O melhor é que essa resposta transforme a obra.
  3. Reveja com o novo dado. O filme muda quando você sabe o porquê das decisões.

Se você tem interesse em colocar a mão na massa e entender do outro lado, vale a pena inscrever seu roteiro no concurso de fomento do audiovisual municipal. O processo de escrita e seleção te ensina que a arte final é 10% de ideia genial e 90% de resolver problemas como "o motor do barco quebrou".

A satisfação de sair do cinema sabendo que "entendeu" não vem de ser esperto o suficiente para decifrar o autor. Vem da coragem de admitir que não entendeu e perguntar. No caso do filme de Henrique, o que eu achei que era um erro de roteiro era, na verdade, a maior virtude do filme: a capacidade de transformar o acaso em narrativa. E eu teria perdido isso se tivesse ficado sentado na minha poltrona, julgando em silêncio.

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